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O LONGO PERCURSO DAQUI ATÉ ESTOCOLMO

O LONGO PERCURSO DAQUI ATÉ ESTOCOLMO

Na Academia Real de Ciências da Suécia, ouve o seu nome ser chamado. Percorre o longo corredor sobre um tapete vermelho e sob o calor esfuziante dos aplausos, aquecendo os cinco graus negativos lá de fora. Após ser laureado, um microfone se instala à sua frente. É este o momento de fazer o seu discurso. Tímido, havia preparado uma folha de caderno com o resumo da sua contribuição científica e algumas frases de agradecimento. Enquanto olhava pra sua família orgulhosa, todos com os olhos gotejantes de emoção, começou a proferir um breve, porém emocionado discurso em sueco.

Mas agora, o João ainda não recebia o seu prêmio, nem se encontrava em Estocolmo. Ainda não tinha sequer ideia de qual seria a grande contribuição que daria à Física. Na verdade, ainda não tinha entrado na faculdade. Ele desentupia o vaso que de novo transbordava na Sweet Dance, uma danceteria onde trabalhava na árdua tarefa de manter o banheiro masculino limpo a noite inteira. Socava o desentupidor enquanto a água fétida churriava o chão e os seus pés. A sua mente se encontrava em outro espaço-tempo. 

Usaria o mais refinado traje de gala. A Sheila, com certeza, saberia indicar um modelo à altura do evento. A Sheila, na verdade, agora não indicaria mais nada. Tinha expulsado ele de casa e não queria na sua frente nem pintado de ouro. Depois de morar três meses com ela e não conseguir emprego porque nada era bom o suficiente pra ele, acabou sendo intimado a ir embora e se obrigou a pegar o primeiro emprego que apareceu pra que pudesse pagar pelo quarto na pensão da Dona Edwiges. Ao passar o pano no vaso e devolver a cor branca à porcelana, os seus pensamentos eram acelerados oscilando quanticamente entre a Sheila e a Academia Real. 

Alguém vem na sua direção. Ele foca os seus olhos e fotografa a imagem dum rapaz de camisa amarela e calça vermelha bem justa. A cor dos olhos é azul. Os cabelos bem pretos ficam um pouco caídos sobre os olhos, dando um ar rebelde. 

- Com licença! – disse o rapaz com a voz muito baixa, intencionando usar aquele sanitário. 

- Esse aqui tá interditado... Pode usar o do lado, que tá livre.

O rapaz entrou sem agradecer a informação. 

O João pôs o bruxo no balde, torceu e esfregou o chão ao redor do vaso sanitário por onde escorria uma água de coloração marrom. Era uma água-não-água. Onde poderia conseguir uns livros pra aprender sueco? Uma língua incomum, pensava. 

Três homens entraram no banheiro juntos. Deviam ser amigos. Os três se dirigiram aos mictórios. O João, encerrando o seu procedimento de limpeza ao redor do sanitário recém restabelecido pro uso, observava os três por trás. O mais da esquerda até que era bem apessoado. Os outros dois, com jaquetas de couro, lembravam em muito o estilo roqueiro do seu pai, morto no meio do ano num acidente de moto. Foi por isso que o João não quis mais voltar pra casa. Livre do pai, poderia fazer o que quisesse. Aí veio a Sheila...

Notou que o homem mais à direita olhava pra ele com a testa enrugada. Disfarçou tirando a placa com as palavras “em manutenção” da porta da baia já limpa. Os homens foram embora.

Será que vai ter, um dia, uma família pra poder prestigiar a sua premiação em Estocolmo? Não via a mãe há tempo. Não tinha coragem sequer de ligar pra ela. Não queria contar o que andava fazendo. Melhor deixar pra ligar só depois que tivesse passado no vestibular. 

O rapaz da calça vermelha saiu da casinha ao lado e se dirigiu até a pia pra lavar as mãos. O João observava os cabelos sobre os olhos que davam um ar delicado, transviado e misterioso. De repente, o jovem se vira pra ele e faz um movimento com o dedo solicitando a sua aproximação. O João ergueu o corpo até então repousado sobre o carrinho que serve de suporte pro balde e pro bruxo. Tentou arrumar os cabelos passando a mão e puxando pra trás uma mecha ondulada e inquieta. “Merda!”, pensa. As luvas sujas pelo desentupimento do vaso acabavam de infectar o cabelo. Fingindo naturalidade, se aproximou do rapaz. Se esquecendo da Sheila, mantinha a esperança de que seja o convite pra um encontro ou uma troca de telefones. 

Quando bem perto, o rapaz abriu um sorriso simpático e falou:

- Acabou o sabonete líquido! – e saiu.

A mente do João dispara na velocidade da luz até Estocolmo. Melhor levar o discurso impresso numa folha de ofício, pois é mais formal e combina melhor com uma cerimônia de entrega do Prêmio Nobel. 

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